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HISTÓRIAS EM TORNO DA QUEDA

Fita e talvez disco de Luciano Mello

Luís Augusto Fischer, em março de 2015

Falou “queda” e o cara 1 já pensa: joelho machucado? O cara 2 vai para outro lado: caiu em tentação? Pecou? O cara 3 e o cara 4 cogitam ser queda por alguma coisa ou por alguém. O 1 é ingênuo mesmo. O 2 é ex-católico. O 3, amigo do 4, são ambos modernos, mas estilo antigo.

Tem muitos outros, que não entraram nesta conta. E todos estranham a obra do Luciano. Eu também estranho. O lance eletrônico onipresente já deixa um cara como eu com as orelhas, não caídas, ao contrário, em pé: isso é um grilo? Uma máquina? Máquina também cai? (Pergunta acessória sem resposta. Ou de resposta inútil.)

Uma vez uma amiga me disse: a música do Luciano tem algo de um adolescente preso num quarto. (“Preso”, não “caído”, ela disse.)

Isso sempre me volta quando escuto o Luciano, como agora, de novo, neste disco, nesta fita, neste conjunto chamado “Histórias em torno da queda”.

Pelo nome a gente já fica convocado a considerar um alto e um baixo – de onde se cai, o lugar em que se cai. Um movimento, mas para baixo.

As melodias muitas vezes se equilibram em poucas notas, indo e vindo sem grandes saltos. E quando tem salto é quase um lamento, não uma solução, uma abertura para novos ares. Bem isso: a música do Luciano faz faltar ar.

O ritmo tende ao monótono, de propósito, para deixar claro que é ali, com poucas variações, que a vida vai, a vida se esvai. (Como bem sabe o adolescente que habita cada um de nós, para sempre.)

Tudo que aqui entra é refeito: samba, bossa nova, um pop, um ar de rock, tudo nos chega desconstruído, em queda livre na direção de um lugar mais embaixo. E se sobra uma levada viva, pode ter certeza de que nada mais tem a ver com o que era antes de entrar em cena.

O piano vem quebrado, não marca nada com clareza, as notas pingam meio aleatórias.

E a percussão, em vez de dar aquele pulso sereno com que acompanhamos música popular, em geral acrescenta tensão ao conjunto.

Até a voz do Luciano tem um jeito de ser muito particular. Não é? Uma intensidade estranha. Tem um tanto de aveludada, mas não para amaciar e sim para angustiar. Sem encher o saco, nunca, que isso ele não faz. Luciano Mello dá o seu recado e cai (fora).

Escuta ali o “Camisa listada” que ele inventou.

Mas o conjunto tem lá sua serenidade. Estranha, pode ser, mas é. O Luciano caiu umas quantas vezes na vida (não importa se real ou apenas sonhada, no quarto de adolescente metafórico em que ele compõe – lá onde brilha “um sol que não quer sair”, meu deus, que imagem medonha de triste…), e agora está nos contando como é que é.

E a gente cai.

Fazer o quê, né?